O Brasil é o maior produtor e exportador de soja do mundo. Nesse contexto, Wander Aguilera Almeida, intermediador no mercado de grãos, nota que, mesmo assim, quem quer proteger o preço da saca por meio de contrato futuro ainda tende a recorrer à bolsa de Chicago, não à bolsa brasileira, curiosidade pouco discutida do mercado.
Essa dependência de um mercado estrangeiro para proteger justamente o produto em que o Brasil domina a produção física chama atenção por parecer contraditória à primeira vista. Veja a seguir por que isso acontece e o que já está sendo feito para mudar esse cenário.
O que é um contrato futuro, na prática?
Negociado em bolsa, o contrato futuro permite travar hoje o preço de venda de uma commodity para entrega em data futura, com liquidação geralmente financeira, ou seja, sem troca física do produto entre as partes envolvidas na operação.
Wander Aguilera Almeida explica que essa ferramenta funciona como um seguro de preço: se a cotação cair até a data combinada, o produtor que travou o valor no contrato futuro não sente o mesmo impacto de quem decidiu esperar sem qualquer proteção contratada previamente. O ganho ou a perda é ajustado financeiramente todos os dias até o vencimento do contrato.
Milho tem liquidez, soja ainda não
Na B3, o contrato futuro de milho conta com volume de negociação relevante, permitindo que produtores entrem e saiam de posições sem grande dificuldade, característica essencial para qualquer instrumento de hedge funcionar bem na prática cotidiana do mercado. Essa liquidez cresceu bastante nos últimos anos, puxada pelo aumento da produção de milho safrinha e pela demanda crescente de compradores que precisam de proteção de preço.

Já o contrato futuro de soja negociado na bolsa brasileira historicamente atraiu pouco volume, o que empurra quem realmente precisa de proteção de preço para os contratos de Chicago, mais líquidos e mais usados internacionalmente há décadas pelo mercado global de commodities agrícolas. Essa escolha, porém, tem um efeito colateral: o produtor brasileiro fica exposto à variação cambial entre real e dólar, já que o contrato de referência é cotado em moeda estrangeira e negociado fora do país.
Segundo Wander Aguilera Almeida, essa dependência incomoda o próprio setor: o Brasil domina a produção física de soja, mas continua sem instrumento financeiro doméstico à altura desse protagonismo no mercado real da commodity produzida em solo brasileiro.
Uma tentativa de mudar esse cenário
A bolsa brasileira já buscou parceria com a bolsa de Chicago para desenvolver um novo contrato futuro de soja, numa tentativa de atrair a liquidez que faltou às versões anteriores do produto negociado internamente. A ideia por trás dessa parceria é conectar o contrato brasileiro a uma referência internacional já consolidada, facilitando a adesão de grandes fundos e tradings acostumados a operar em Chicago.
Construir liquidez em um novo contrato financeiro é processo lento, que depende de grandes empresários do mercado decidirem migrar parte de suas operações para a nova opção, movimento que não acontece da noite para o dia em nenhum mercado financeiro do mundo. Enquanto essa transição não se completa, o produtor brasileiro segue, na prática, dependente de uma referência de preço formada do outro lado do continente.
O que isso significa para o produtor comum?
Para quem não opera diretamente em bolsa, essa discussão pode parecer distante, mas afeta indiretamente o custo de proteção oferecido por intermediários e cooperativas que repassam operações de hedge para o produtor final da cadeia produtiva. Um mercado com pouca liquidez tende a ter custo de operação mais alto, repassado adiante em cada ponta da negociação.
Na análise de Wander Aguilera Almeida, entender essa diferença de liquidez entre milho e soja ajuda o produtor a conversar com mais propriedade sobre qual ferramenta de proteção realmente faz sentido para cada grão específico cultivado na propriedade.

